O grantmaking participativo, ou filantropia participativa, vem ganhando espaço no debate sobre o futuro do investimento social privado no Brasil. Diferente do modelo tradicional, em que as decisões sobre o uso dos recursos são tomadas por poucas pessoas em fundações e institutos, essa abordagem propõe que comunidades, lideranças locais e beneficiários participem ativamente do processo de decisão sobre onde e como o dinheiro deve ser aplicado.
Inovação que é abordada pela Iniciativa Pipa através do estudo “Financiamento participativo: uma forma equitativa de doação”, que através das diversas formas de classificar o “participatory grantmaking”, optou por chamar de “financiamento participativo” com o objetivo de dar atenção central as organizações periféricas no âmbito das doações.
O conceito defendido visa romper com a lógica verticalizada da doação, ao reconhecer que quem vivencia os problemas sociais tem conhecimento e experiência fundamentais para definir prioridades e estratégias de transformação. No modelo participativo, os recursos são geridos de forma mais transparente e horizontal, com processos de escuta e deliberação coletiva.
“Abrir mão de poder é muito difícil e, muitas vezes, o poder vem camuflado como controle. Isso não é exclusivo do setor filantrópico; é uma forma de operar profundamente enraizada no nosso modelo de sociedade. Ainda prevalece a lógica de que quem doa precisa ‘controlar’ para garantir resultados, o que impede processos verdadeiramente participativos e descentralizados”, avalia Erika Sanchez Saez, diretora executiva do Instituto ACP.
Nesse sentido, o estudo destaca que o grantmaking participativo pode ser incorporado por meio de diferentes estratégias institucionais e culturais, abrangendo desde a definição de diretrizes e o planejamento de projetos até a execução e o acompanhamento de programas. Essas ações podem ocorrer em distintas etapas do processo de financiamento, incluindo divulgação e seleção de iniciativas à tomada de decisão coletiva e à avaliação dos resultados, o que demonstra a amplitude e a flexibilidade desse modelo.
São elencados cinco princípios básicos da participação: intencionalidade, pluralização, descentralização, horizontalidade e acesso ao recurso. “Mais do que falar sobre a importância, o ponto é entendê-los como premissas. Se há a vontade de fazer grantmaking participativo, esses princípios funcionam como um guia prático para desenhar processos de tomada de decisão”, destaca Erika Sanchez.
“Eles também servem como checklist para avaliar se a organização está realmente se movimentando – em alguma dimensão – rumo a um grau mais alto na escala de participação do seu grantmaking”, completa.
O estudo da Iniciativa Pipa dedica um capítulo a discutir como as instâncias doadoras podem se tornar mais participativas. O relatório propõe três níveis de envolvimento — básico, intermediário e avançado. Neste último, a pesquisa apresenta um modelo de co-governança e autogestão, em que instituições e territórios periféricos dividem responsabilidades desde o desenho até a avaliação das iniciativas.
Desse modo, um outro passo seria a criação de um comitê misto de co-decisão sobre o financiamento, em que a participação deixa de ser apenas um espaço dentro da estrutura organizacional e passa a fazer parte da própria governança e da gestão dos recursos. Nesse formato, há corresponsabilidade e autonomia compartilhada para definir prioridades, decidir orçamentos e revisar processos.
Também integram essa etapa o orçamento participativo direcionado, a elaboração conjunta das linhas de apoio – as áreas temáticas a serem financiadas – e a busca por uma governança transformadora nas práticas de investimento social.
“Implementar processos participativos no financiamento é, antes de tudo, apostar em uma prática viva, marcada pela experimentação, pelos aprendizados contínuos e, não raro, pelos riscos”, destaca o estudo.
Por: Gife
Fonte: gife.org.br