Voluntariado cresce no Brasil e mobiliza debate sobre participação de crianças e adolescentes

Embora o voluntariado esteja em expansão no Brasil, crianças e adolescentes ainda participam pouco dessas iniciativas, o que abre um debate sobre como engajar as novas gerações e incorporar a prática desde cedo. Atualmente, a presença de jovens no voluntariado ocorre de forma pontual: algumas escolas incluem projetos sociais no currículo ou nas atividades extracurriculares; em outros casos, a iniciativa parte das famílias, que procuram organizações da sociedade civil para proporcionar experiências de solidariedade aos filhos.

Os números indicam avanço. A pesquisa “Voluntariado no Brasil 2021”, realizada pelo Instituto para o Desenvolvimento do Investimento Social (IDIS) em parceria com o Datafolha, aponta que 57 milhões de brasileiros realizaram trabalho voluntário em 2021 — o equivalente a 56% da população com mais de 16 anos. O levantamento, feito a cada dez anos, revela crescimento consistente: em 2001, apenas 18% declaravam atuar como voluntários; em 2011, eram 25%.

Para a educadora parental, Ana Valéria “Lela” Santos, a aproximação entre infância e voluntariado pode influenciar a formação cidadã. Voluntária há duas décadas na ONG Terra Livre, que trabalha pela garantia de direitos de crianças e adolescentes em situação de vulnerabilidade social, ela também desenvolve o projeto “Ser Solidário”, que busca envolver famílias em ações continuadas.

“O lugar onde eu mais percebo esse impacto é dentro da minha própria casa, através dos meus filhos, hoje adolescentes. Porque desde que nasceram, eu já fazia trabalho voluntário. Eu percebo como eles têm um olhar empático, compreendem as desigualdades do país, conversam a respeito com os amigos.”

No entanto, a educadora observa que envolver crianças e adolescentes tem se tornado mais desafiador. “As famílias têm cada vez menos tempo, e consequentemente as crianças e os adolescentes também”, relata. Ela destaca que a rotina infantil está cada vez mais preenchida por atividades extracurriculares, o que dificulta a criação de espaços dedicados a ações comunitárias. Na prática, isso limita a continuidade das iniciativas e faz com que muitas participações ocorram de forma pontual.

Essa avaliação vem dos próprios esforços da ativista para conectar as crianças das famílias que apoiam a ONG em que atua para conhecerem o trabalho realizado de perto.

“Tentamos promover encontros para que aqueles que já contribuem com a ONG a partir de doações, consigam envolver os filhos. Para que a gente consiga criar uma nova geração consciente da importância do voluntariado. No Brasil não temos essa cultura, também não se fala nas escolas.”

Quando esses encontros acontecem, Ana Valéria nota que muitos participantes vêm de realidades privilegiadas e, por isso, têm pouco contato com situações de vulnerabilidade social. “No primeiro momento é um impacto grande, muitas vezes os pais nunca sequer conversaram com as crianças sobre isso”, comenta.

Diante disso, Ana Valéria entende que é preciso tomar cuidado para evitar que o voluntariado reproduza relações de desigualdade ou uma lógica assistencialista. Mas sim, estimule as crianças e adolescentes a desenvolverem senso crítico, empatia e entenderem sobre a defesa de direitos, cidadania e compreensão da responsabilidade coletiva. A chave para isso, defende, está na diferença entre ações isoladas e processos continuados. 

Para famílias interessadas em incentivar o voluntariado, Ana Valéria sugere um primeiro passo pragmático: identificar o que é possível oferecer. Segundo ela, nem toda contribuição precisa ser financeira: tempo, conhecimento e rede de contatos também são recursos relevantes. “É no trabalho de formiguinha que vamos criar uma geração mais atenta para essas causas.”

Por: Gife

Fonte: gife.org.br

Política de Privacidade

Este site usa cookies para que possamos oferecer a melhor experiência de usuário possível. As informações de cookies são armazenadas em seu navegador e executam funções como reconhecê-lo quando você retorna ao nosso site e ajudar nossa equipe a entender quais seções do site você considera mais interessantes e úteis. Acesse nossa Política de Privacidade.

//]]>