Sejamos células: juntas e juntos

Este é um texto especial. De alguma forma, à sua maneira, cada texto o é. Afinal, neles residem sentimentos, ideias, memórias, propostas, esperanças, desesperos e ofertas. Sim, todo texto é absolutamente único, em especial quando se busca a autenticidade.

Este, aqui, é um texto especial, entre todos os especiais, para mim, no contexto da Revista Filantropia. Em 2020, a minha contribuição voluntária, à revista, completa a sua maioridade. Lá se vão 18 anos, ininterruptos, com mais de 100 textos publicados; às vezes, mais de um, em uma mesma edição. Há muito o que celebrar. E, também, há o momento de se despedir: este é o último texto que escrevo para a Revista Filantropia, ao menos, por ora.

Ao longo desse tempo, aconteceram tantas coisas em minha vida. Suponho que na sua também. Pessoalmente, eu vi a minha filha crescer e o meu pai partir. Afetei e fui afetado, no íntimo, com ecos e transições, reverberando. Profissionalmente, atuei em vários segmentos, em especial junto a programas sociais e eventos educativos. Fiz palestra, escrevi peça de teatro, apresentei programa de rádio e televisão, fui palhaço de hospital, fiz consultoria, escrevi textos e livros, e mais um punhado de coisas. Felizmente, me alegrei muito mais do que o contrário, em todas essas atividades.

Das coisas que mais fiz, algumas me marcaram, um pouco mais: gestão de uma organização social, atividades de arte em hospital e criação e apresentação de eventos de desenvolvimento humano. Elas me permitiram compreender mais sobre o que sou, sobre o lugar do outro e sobre o mundo, num sentido mais amplo.

No caminho, fui ampliando a minha percepção e adesão ao que os gregos antigos enunciavam, como missão da Paideia, o seu processo educativo de crianças e jovens: revelar seres humanos éticos e criadores. Ética, antes da criação, pois não há caixa de ferramentas mais relevante que a caixa de conexões humanas. Há um pensamento atribuído a Sócrates, que parafraseio, assim: primeiro, a educação da virtude e a arte de governar os vícios. A coragem de ser verdadeiro e assim se revelar. Afinal, para o conhecimento e a técnica, há a vida toda.

Olhando, em especial, diariamente, para o Terceiro Setor, fui percebendo que a mobilização de pessoas é mais importante que a mobilização de recursos materiais. Eu seria tolo e subestimaria a sua inteligência se ignorasse a enorme relevância dos recursos materiais. Mas, trata-se, aqui, de uma visão mais ampla do cenário: sem pessoas sensibilizadas e lúcidas sobre as questões coletivas, seguiremos sendo uma sociedade com umas das 10 maiores riquezas materiais do mundo, mas, invariavelmente, transitando acima da posição de número 70, em se tratando do Índice de Desenvolvimento Humano.

A parte técnica será sempre essencial, para pavimentar o caminho. A pergunta que mais me interessa, contudo, é: para onde estamos indo? Com quem estamos indo? Como estamos indo? Por quem estamos indo? Estamos promovendo microrrevoluções, junto aos nossos públicos de interesse, ou estamos fazendo mais do mesmo, apagando incêndios, dia após dia?

Fui percebendo que quanto mais chove gente interessada e lúcida, em nosso terreno, pelo nosso convite e acolhimento cada vez mais qualificados, aumenta-se a chance do compartilhamento da tarefa de apagar os incêndios, que vieram, vêm e virão. Daí, pode surgir mais tempo para algo realmente revolucionário: mergulhos mais profundos, em nossas causas, propósitos, princípios e valores, de braços e mentes enlaçados com as pessoas que estão em torno de nossas atividades, desde as voluntárias até o público beneficiário.

Façamos chover gente e valores humanos que afirmam a vida coletiva, cada vez mais. Invariavelmente, é este o valor maior de uma organização e, por consequência, para a sua contribuição social.

Este texto será lido em um momento futuro. Normalmente, há um hiato de meses entre a sua redação e publicação. No momento em que escrevo, estamos entrando no ponto mais crítico da pandemia da Covid-19. Torço para que a consciência coletiva se amplifique, em velocidade nunca vista, no Brasil, para que saiamos desta tormenta, com o menor número possível de mortes. Até porque isso é essencial para nos protegermos dos desvarios de governantes incompetentes e indiferentes.

Há 18 anos, conheci um Terceiro Setor que tendia às grandes organizações, ou seja, o sucesso estava associado a crescer, crescer e crescer, tal qual a lógica do Segundo Setor. Mudei, bastante, a minha ideia, para um conceito mais plural e pulverizado de entusiasmo pela ideia e pela prática de vida social. Que sejamos, muito mais que grandes instituições, pequenos organismos humanos que se multiplicam para dar mais chance de vida de qualidade a muito mais pessoas. Até porque, desorganizados, como ainda somos, viramos presas frágeis até para organismos que sequer células têm.

Receba o meu abraço agradecido por esses anos de companhia, aqui. Torço por você e suas causas. Estendo este agradecimento à equipe da revista.

Sejamos células. Sejamos juntos e juntas. Sejamos fortes, por todas e todos. Até logo!

Por: Felipe Mello

Fonte: filantropia.ong

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