Os desafios do ensino infantil durante e depois da pandemia

Nesta conversa com quem está na ponta da rede pública de ensino no município de São Paulo, ficou claro que o retorno às aulas não será uma volta ao momento em que elas foram interrompidas. Vários meses se passaram e muitas mudanças ocorreram nesse período que impactaram as crianças e suas famílias, os professores e demais profissionais envolvidos e a própria cidade, onde a pandemia evolui de maneira diferente em cada região e nos diversos distritos.

Devido ao risco ainda presente de infecção pelo novo coronavírus, as escolas terão de organizar novas rotinas. Já os educadores terão não só de replanejar o ano letivo, mas também considerar os efeitos diferenciados que a pandemia e o afastamento da escola produziram sobre as crianças. Normas gerais estabelecidas pela Secretaria de Educação são condição necessária para o retorno às aulas (previsto para 8 de setembro), mas os professores e gestores não estão passivamente no aguardo das orientações superiores. Ao contrário, estão ativamente discutindo e buscando soluções para os desafios que terão de enfrentar.

É o que mostra o texto a seguir, que põe em destaque o pensamento vivo e inquieto de profissionais dedicados de corpo e alma à educação pública. “Neste momento tão complexo e desafiador, é fundamental dar voz aos profissionais que estão na ponta – professores, coordenadores e diretores –, pois são eles que vivem e conhecem o mundo real e concreto da educação”, disse a educadora Beatriz Cardoso, fundadora e presidente do Laboratório da Educação e diretora da Fundação FHC, ao dar início ao webinar “Os desafios da escola durante e depois da pandemia: diálogo com educadores da rede pública do município de São Paulo”.

“As escolas já vêm discutindo e construindo algumas soluções a partir da interação à distância com pais e alunos e dos aprendizados ocorridos desde que começou a pandemia. O objetivo desta conversa é compartilhar conhecimento e experiência para que a volta às aulas seja a mais segura e bem-sucedida quanto possível”, disse o co-organizador do evento, doutor em educação pela USP Alexsandro Santos, que reuniu profissionais da educação infantil. A Fundação deve promover novo debate com profissionais que trabalham com crianças maiores.

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‘Direito de não retorno às aulas em 2020’  

“Algumas mães estão muito preocupadas. Uma delas já avisou que não vai mandar seu filho de volta neste ano e quer saber o que faremos em relação às faltas e se as atividades online continuarão. Diantes das incertezas relacionadas ao avanço do novo coronavírus no país, é importante garantir o direito de não retorno no ano letivo de 2020. As crianças não podem ser penalizadas com faltas e outras medidas”, disse Rosamaria Cris Silvestre, diretora de escola municipal em Sapopemba (Zona Leste), um dos distritos com mais mortes na capital paulista.

“Será que todas as escolas, dos Centros de Educação Infantil às unidades de ensino fundamental, médio e universidades, localizadas em diferentes locais, têm condições de retomar as atividades no mesmo momento? Mesmo dentro da cidade de São Paulo, as realidades são muito diversas. Isso precisa ser levado em consideração”, continuou.

“Talvez seja o caso de garantir um ano a mais de educação infantil para todas as crianças”, sugeriu Maria Claudia Fernandes, diretora de uma escola na região central de SP. “Algumas famílias não têm opção e precisam que as crianças voltem para a escola. Outras até precisam, mas preferem aguardar. É importante mapear quais crianças precisam vir todo dia, quais podem alternar entre a escola e a casa e quais não voltarão neste ano. O ideal seria haver um revezamento para que a criança não perca o vínculo com o espaço da escola por tanto tempo”, disse.

“Não estamos colocando nos ombros da educação a falsa ilusão de que ela é responsável pela solução de todos os problemas neste momento? Não deveria haver uma resposta muito mais enérgica por parte de outras secretarias e esferas do poder público? A Secretaria de Educação precisa trabalhar de forma integrada com outras áreas do governo. Se a solução ficar só com a gente, educadores, a carga será muito pesada”, afirmou Tiago de Melo Pinto, professor e coordenador pedagógico no Centro de Educação Infantil CEU Cidade Dutra (Zona Sul).

“Os protocolos devem vir dos órgãos centrais – governos estadual e municipal e secretarias de Educação – e faço um exercício de me colocar no lugar das autoridades responsáveis. Não é fácil. Deve haver uma lei para todo mundo ou é necessário analisar situações diferenciadas e com base em quê? No caso da educação infantil é ainda mais complicado porque a linguagem das crianças pequenas é o corpo. Como garantir o distanciamento entre elas?”, disse Beatriz Cardoso, doutora em Educação pela USP. Segundo a educadora, as regras de retorno não podem prejudicar ainda mais as crianças, que já passaram por rupturas em sua rotina.

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‘Tentação de volta da pedagogia transmissiva’

“Como garantir os princípios da integralidade, da inclusão e da qualidade na educação pública no pós-pandemia?”, perguntou Tiago de Melo Pinto, especialista em Educação Especial. “Quando estão na escola, os bebês e as crianças têm as mesmas condições de aprendizado e desenvolvimento. Mas, distantes da sala de aula há vários meses, nem todos têm tido acesso às tecnologias necessárias para estudar remotamente e poucos têm a ajuda de uma pessoa alfabetizada e com tempo disponível para ser mediadora do processo de aprendizado. O risco de retrocesso às décadas de 1980 e 90, quando a educação no Brasil era uma possibilidade para poucos, é real”, afirmou.

“Será que a alternativa da educação a distância, necessária nesse momento, tem se mostrado positiva? Como não cair na tentação de um convite – que, aliás, é uma pegadinha maldosa – à volta de uma pedagogia transmissiva em detrimento das pedagogias participativas que lutamos tanto para implementar mais recentemente?”, continuou o professor.

Rede tem déficit crônico de tecnologia

Segundo Claudia Fernandes, especializada em Gestão da Educação Pública pela UNIFESP, durante a pandemia a relação com as crianças pequenas, em geral muito próxima e direta, passou a ser mediada pelos adultos por meio da tecnologia. “Logo percebemos que apenas 50% das crianças tinham computador para estudar em casa, outros 50% só celular. Foi através do WhatsApp, que atinge 95% dos lares, que temos conseguido dar algum apoio a elas, não apenas do ponto de vista pedagógico, mas também da solidariedade. Quem salva vidas é o SUS, mas a escola pública é o equipamento que está mais perto das comunidades”, disse.

“Em nossa escola, temos utilizado WhatsApp, Facebook e Zoom para dialogar com as famílias, pois nem todos os pais utilizam as mesmas ferramentas. Com relação à produção de conteúdo online, alguns professores tiveram mais facilidade, outros menos. Houve um reforço do coletivo, um ajudando o outro. Também buscamos parceria com a universidade para que estagiários de pedagogia ensinassem nossos professores a editar vídeos, colocar material no Drive etc. Esses foram ganhos do período de pandemia”, relatou Rosamaria Silvestre.

“A nova realidade exige cuidado na busca de boas práticas e apoio para as crianças e os professores. Não se aprende a ser uma criança potente em cartilhas ou vídeos de um minuto. Já o professor protagonista precisa de respeito e educação continuada. Os órgãos centrais do sistema de educação são muito importantes nesse momento, mas é fundamental restabelecer a autonomia da escola no dia a dia do processo educativo no pós-pandemia”, afirmou Tiago Pinto.

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‘Crianças passaram por revoluções’

Todos os participantes salientaram a necessidade de um trabalho de toda a comunidade educacional com outras áreas da administração pública para apoiar as crianças e os profissionais no retorno às aulas. “Nossos bebês saíram daqui deitadinhos, hoje já dão os primeiros passos e começam a falar. Nesses mais de seis meses longe da escola (de março a setembro), aconteceram revoluções (na vida das crianças). Não é possível voltar de onde paramos. Toda ajuda é bem-vinda”, disse Tiago.

“A criança não voltará igual, o profissional da educação também não. A maioria enfrentou dificuldades, alguns ficaram doentes, outros perderam entes queridos. Eles também precisam e merecem acolhimento”, disse Rosamaria, que fechou parceria com a UBS (Unidade Básica de Saúde) mais próxima para ajudar na implementação de medidas sanitárias e apoio psicológico. Na escola, a diretora formou uma comissão com voluntários de todas as áreas – de professores a auxiliares de limpeza e responsáveis pela cozinha – para dialogar internamente e com os pais sobre o retorno às aulas.

A diretora demonstrou preocupação com a proteção das crianças: “A Secretaria já adiantou que haverá verba para compra de EPIs, mas antes da pandemia houve cortes no serviço terceirizado de limpeza. Somos uma escola grande, com dez salas de educação infantil, centenas de crianças e apenas quatro funcionários de limpeza das 7h às 19h. Como proteger as crianças nessa situação?”

Claudia destacou o trabalho conjunto que tem sido feito pelo Território Educativo das Travessias, que integra quatro escolas públicas do centro de São Paulo, com desafios e características comuns. No retorno às aulas, contarão com o apoio do Laboratório de Psicologia Social da Universidade de São Paulo. “Em geral, temos pouca ou nenhuma atuação intersetorial e, como gestora, sinto-me com frequência só. Este é o momento de exercitar a reflexão coletiva e a gestão democrática”, disse.

O fato de as crianças estarem em casa abre a possibilidade de as escolas planejarem o retorno com mais tempo e foco. “Faço parte de uma escola de samba e nos preparamos durante um ano inteiro para desfilar apenas 50 minutos. Na escola, em geral temos no máximo dois dias para planejar todo o ano letivo. A Secretaria Municipal de Educação quer que os professores façam uma preparação de dez dias antes do retorno. Quem sabe esse tempo maior de planejamento resulte em um legado positivo?”, disse Rosamaria.

“Com as crianças na escola durante 12 horas por dia, é difícil reunir todos os profissionais envolvidos no processo educativo dentro da escola. Temos agora a oportunidade de conversarmos e tomarmos decisões juntos”, concordou Claudia.

Ao concluir a conversa, Beatriz Cardoso resumiu os principais pontos trazidos pelos profissionais:

– Necessidade de protocolos rigorosos, mas flexíveis;

– Importância do diálogo com as famílias, favorecido por ferramentas e aplicativos online;

– Interação com outros setores da administração pública;

– Risco do ensino transmissível (‘apenas transmissão de conteúdo não resolve’);

– Fortalecimento do papel da escola (‘o verdadeiro lugar onde a educação acontece’);

– Formação continuada dos professores;

– Tempos de planejamento do retorno (‘adorei a comparação com a escola de samba’)

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Educação: A renovação do Fundeb em pauta (abril de 2019)

Formação de professores: o que o Brasil tem a aprender com a Finlândia? (março de 2019) 

Otávio Dias, jornalista especializado em política e assuntos internacionais, foi correspondente da Folha em Londres e editor do site estadao.com.br. Atualmente é editor de conteúdo da Fundação FHC.

Publicado por: Fundação FHC

Fonte: gife.org.br

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