O oceano registrou, em agosto, a maior temperatura média de sua superfície já observada na série histórica do Copernicus. A marca chegou a 21,1°C, superando o recorde anterior, de 21,09°C, registrado em março de 2024. Em tempos usuais, as temperaturas médias globais da superfície do mar costumam atingir seus maiores valores entre março e abril. Desta vez, porém, o recorde aconteceu em pleno mês de agosto, em um contexto do El Niño que promete ser o mais forte já registrado.
O fenômeno ajuda a explicar o pico, mas não conta a história inteira. Segundo Liziane Alberti, especialista em conservação da biodiversidade na Fundação Grupo Boticário de Proteção à Natureza, o recorde é resultado da combinação entre um El Niño e um oceano que já vem acumulando calor em consequência das mudanças climáticas.
“Esse recorde nos lembra do papel fundamental que o mar tem desempenhado: o oceano absorve mais de 90% do excesso de calor do nosso planeta. O que esse recorde revela sobre nossas ‘falhas’ deve ser encarado como um alerta para correção de rota”, avalia.
Um oceano mais quente não significa apenas água com temperatura mais alta. Bruna Canal, porta-voz da Frente de Oceanos do Greenpeace Brasil, lembra que o branqueamento dos corais, por exemplo, compromete ecossistemas que funcionam como áreas de abrigo e alimentação para espécies marinhas. Sua degradação pode reduzir estoques pesqueiros e afetar a renda e a segurança alimentar, atingindo não apenas comunidades costeiras, mas toda a economia que depende desses serviços. “Por isso, um oceano saudável e resiliente é parte da estratégia de enfrentamento à crise climática.”
Para Liziane Alberti, historicamente, deixamos de dar ao oceano o protagonismo que o oceano merece nas soluções climáticas, mas há tempo para mudar. “Já se tornou inevitável enfrentarmos um oceano mais quente. Por isso, a adaptação tornou-se um caminho fundamental, com a possibilidade de usar a própria natureza a nosso favor.”
Um exemplo citado pela especialista é o “Soluções Baseadas na Natureza (SBNs)”, iniciativa da Fundação que mapeou muitos desses impactos positivos nos estudos da série Oceano sem Mistérios. A publicação sobre carbono azul, por exemplo, revela que os manguezais brasileiros armazenam 1,9 bilhão de toneladas de CO2, um serviço ecossistêmico com potencial de gerar até R$ 48 bilhões em créditos de carbono.
“Ao mesmo tempo, o Brasil tem o privilégio de abrigar os únicos sistemas recifais de todo o Atlântico Sul. Nossos corais não apenas concentram uma biodiversidade singular, mas são barreiras naturais que protegem as cidades contra tempestades e erosão e garantem renda para as comunidades costeiras”, completa.
Apesar de sua importância para a regulação do clima, os oceanos ainda ocupam um espaço relativamente pequeno nas estratégias de investimento climático. É o que mostra o Censo GIFE 2024-2025, segundo o qual apenas 13% das organizações que atuam na agenda de clima afirmam trabalhar com recursos hídricos e oceanos.
Para Liziane Alberti, a principal lacuna de financiamento é justamente a “invisibilidade” do oceano nas estratégias de investimento. Olhando para os dados do Censo GIFE ela constata que tenta-se combater a crise climática olhando apenas para a terra, esquecendo que a solução também passa inevitavelmente pelo mar. Globalmente, a Unesco estima que menos de 1% dos orçamentos nacionais no mundo é direcionado à ciência oceânica.
“Pensando em onde o ISP pode atuar de maneira estratégica, primeiramente, alinhando-se a agendas globais, como a Década do Oceano (2021-2030), da ONU”, sugere.
Bruna Canal pontua ainda que a resiliência dos territórios costeiros e marinhos exige investimentos de longo prazo, que permitam às organizações, redes e comunidades ter tempo, recursos e autonomia para construir e sustentar soluções duradouras. A diferença, opina, pode ser feita em três frentes: conservação e restauração dos ecossistemas costeiros e marinhos; fortalecimento das organizações e comunidades que já cuidam desses territórios; e financiamento da adaptação climática costeira. “O oceano precisa deixar de ser uma agenda periférica do investimento climático. Investir no oceano é investir em clima, biodiversidade, segurança alimentar, economia e justiça social”, finaliza.
Por: GIFE
Fonte: gife.org.br