Movimento Médicos pelo Clima lança cartilha sobre impactos da crise climática na saúde infantil

Com linguagem acessível e rigor técnico, publicação orienta cuidadores sobre como eventos extremos afetam a saúde física e mental das crianças brasileiras

Movimento Médicos pelo Clima lançou uma cartilha inédita que orienta pais, mães e cuidadores sobre os efeitos das mudanças climáticas na saúde infantil. Com abordagem regional e foco em prevenção, a publicação aborda os riscos provocados por fenômenos como ondas de calor, secas, queimadas e enchentes.

Idealizada pelo Instituto Ar, a publicação foi produzida por médicas e médicos com ampla atuação regional, experiência em pediatria e saúde pública, e contou com revisão técnica da Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP) e colaboração do pediatra infectologista Renato Kfouri.

Dividida por regiões do país, a cartilha destaca fenômenos climáticos mais recorrentes em cada localidade e seus impactos diretos na infância. No Sul, o foco está nas inundações (Dra. Marilyn Urrutia); no Sudeste, nas chuvas intensas e altas temperaturas (Dra. Evangelina da Motta Pacheco Alves de Araújo); no Centro-Oeste, nas ondas de calor (Dra. Natasha Slhessarenko F. Barreto); no Nordeste, nas secas prolongadas (Dra. Maria Enedina Claudino de Aquino Scuarcialup); e na Região Norte, nas queimadas na Amazônia (Dra. Raquel Baldaçara).

O conteúdo foi elaborado com linguagem acessível, sem abrir mão do rigor científico, e traz ilustrações e um glossário com termos técnicos de saúde e clima. O objetivo é apoiar o cuidado cotidiano, além de facilitar o diálogo entre médicos e famílias. A cartilha foi desenvolvida com patrocínio da RD Saúde, apoio da Fundação José Luiz Setúbal e parceria institucional da SBP.

Segundo o Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF), cerca de 40 milhões de crianças e adolescentes brasileiros estão expostos a um ou mais riscos climáticos. Os eventos extremos — como secas, enchentes, queimadas e calor intenso — têm se tornado cada vez mais frequentes e ameaçam diretamente a saúde física e mental das crianças.

Em nota à imprensa, presidente da SBP, Edson Liberal, reforça a urgência do tema:

“As mudanças climáticas já são uma realidade no cotidiano das crianças brasileiras, afetando diretamente sua saúde física e mental. Ao colaborar com essa cartilha, a SBP reforça seu compromisso com a promoção da saúde infantil em todos os contextos, inclusive diante dos desafios ambientais”.

Ele destaca ainda a importância da informação para a prevenção. “Essa publicação traduz com clareza científica e sensibilidade regional os riscos que enfrentamos e oferece orientações práticas que podem salvar vidas. Acreditamos que informar é uma das formas mais eficazes de proteger”. 

O pediatra infectologista Renato Kfouri acrescenta que os efeitos das mudanças climáticas vão além do calor extremo.

“As mudanças climáticas afetam diretamente a saúde das crianças: comprometem a saúde respiratória, influenciam a nutrição pela privação de alimentos e impactam a segurança alimentar. Também favorecem a proliferação de mosquitos transmissores de doenças como febre amarela, dengue, chikungunya e outras arboviroses. Informar a população sobre formas de cuidado e prevenção é fundamental. A comunidade médica tem um papel central nesse processo — o médico ainda é a principal fonte de informação confiável e de qualidade para as famílias no que diz respeito à prevenção e ao controle de doenças”.

A cartilha está disponível gratuitamente para download no site oficial do Instituto Ar. 

O risco para as crianças brasileiras

O Brasil é considerado um país de alto risco pelo Índice de Risco Climático das Crianças (Children’s Climate Risk Index), desenvolvido pelo UNICEF. O levantamento aponta que 24,8 milhões de meninos e meninas com menos de 18 anos estão expostos ao risco de poluição do ar e 13,6 milhões ao risco de ondas de calor. Essa vulnerabilidade se intensifica entre crianças pequenas, cujos sistemas imunológico e respiratório ainda estão em desenvolvimento.

Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS) estima que a poluição do ar esteja associada a 50% dos casos de pneumonia e a 44% dos casos de asma, resultando em cerca de 600 mil mortes de crianças por ano. Crianças e adolescentes em situação de vulnerabilidade social estão especialmente vulneráveis aos impactos das mudanças climáticas, além daquelas que vivem comunidades tradicionais ou possuem algum tipo de deficiência.

“As mudanças climáticas já estão alterando profundamente as condições de vida e saúde das crianças brasileiras. Cada região do país revela, de forma singular, os desafios e urgências desse cenário. Em todas essas realidades, a saúde infantil emerge como um termômetro da crise climática e um chamado à ação”, avalia na cartilha o pediatra Daniel Becker, embaixador do Médicos pelo Clima.

“Cuidar das crianças é cuidar do mundo em que elas irão crescer — e que esse compromisso una profissionais de saúde, famílias, educadores e gestores em uma jornada guiada pela urgência, pela responsabilidade e pela esperança”, finaliza.

Médicos engajados na relação entre clima e saúde

Anteriormente chamado de Médicos pelo Ar Limpo, o movimento Médicos pelo Clima surgiu em 2020 com o objetivo de unir forças em defesa da saúde pública e do meio ambiente no Brasil. Naquele ano, mais de dez associações médicas e o Ministério Público Federal se uniram para garantir a implementação dos prazos do PROCONVE (Programa de Controle da Poluição do Ar por Veículos Automotores), assegurando o início da fase P8 para veículos pesados. Essa medida previa reduzir em até 95% as emissões do poluente “material particulado”, preveniria 140 mil mortes nos próximos 30 anos e evitaria cerca de R$ 575 milhões em custos hospitalares do SUS.

Desde então, promove a conscientização da sociedade, a defesa de políticas públicas e o engajamento médico para enfrentar a crise climática e proteger a saúde da população. Já alcançou mais de 15 mil profissionais de saúde e passou a integrar coalizões como a Clima, Crianças e Adolescentes, a Coalizão Global Clima e Saúde e o GT Saúde Única da Sociedade Brasileira de Pediatria.

“Colocar a discussão do tema sobre mudanças climáticas e saúde infantil é fundamental entre todos os atores desse processo: gestores públicos, comunidade científica, médicos, sociedades médicas e, claro, a população. É preciso envolver todos na decisão sobre as melhores maneiras de controlarmos, evitarmos e mitigarmos os efeitos danosos que o clima tem causado à saúde de todos — especialmente das crianças”, conclui Dr. Renato Kfouri.

Sobre o Instituto Ar

Instituto Ar é uma organização sem fins lucrativos fundada por médicos, acadêmicos e profissionais do mercado comprometidos com a causa ambiental. Com mais de 16 anos de atuação, consolidou-se como referência na conexão entre saúde, clima e qualidade do ar. Protege a saúde humana por meio do enfrentamento às mudanças climáticas e da poluição atmosférica, transformando conhecimento científico em ação, influenciando políticas públicas e mobilizando a sociedade por um ar e um clima mais saudáveis.

Redação Observatório 3º Setor

Fonte: observatorio3setor.org.br

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