Confiança em jogo: Como as organizações enfrentam crises, fortalecem vínculos e constroem alianças duradouras

A queda nos índices de credibilidade tem atingido organizações em todo o país e colocado em risco seus processos de sustentabilidade financeira. Neste cenário, como é possível construir vínculos e projetos de longo prazo? No especial redeGIFE de setembro, conversamos com especialistas que apontam caminhos para novas relações.

No Brasil, a confiança tornou-se uma das moedas mais disputadas da agenda pública. Quando ela se fragiliza, instituições de todos os tipos – do Estado às empresas – vêem seu papel questionado, e a cooperação necessária para enfrentar problemas coletivos enfraquece. No terceiro setor, entender o que faz o brasileiro confiar é mais do que uma questão de percepção: é um fator determinante para a sustentabilidade das Organizações da Sociedade Civil (OSCs).

Pesquisa Doação Brasil 2024 mostra a dimensão do desafio. Apenas 30% acreditam que a maior parte das OSCs é confiável, um índice em queda desde 2020, quando era de 41%. O levantamento revela que os doadores estão mais cautelosos, suspendendo contribuições diante da falta de transparência, clareza nos resultados ou proximidade com a causa.

Esse movimento acompanha um quadro mais amplo: segundo o Índice de Confiança Social 2025 (Ipsos/Ipec), todos os 20 segmentos institucionais avaliados, das Forças Armadas às igrejas, passando por meios de comunicação e corpo de bombeiros, registraram retração na credibilidade, evidenciando que a crise de confiança atravessa a sociedade como um todo.

“A confiança é um fator relacional e centrado em valores, crenças e identificação com causas, pessoas e organizações. A filantropia baseada em confiança é fundamental enquanto uma visão que leva em consideração elementos de equidade, de redistribuição de poder, de cultura, de estruturas e da prática das organizações e das pessoa,” explica Patrícia Kunrath, coordenadora de Conhecimento do GIFE.

Para Andréa Wolffenbüttel, do Comitê Gestor da Sociedade Viva representando o Observatório do Terceiro Setor, os números não surpreendem. Ela acredita que a crise de confiança não se deve à falta de transparência por parte das ONGs, mas à uma conjunção de fatores externos. Entre eles, as desinformações e ataques contra essas instituições, e até mesmo a fraca cobertura jornalística do trabalho realizado por elas. “Oscila entre apresentar casos de assistencialismo e denunciar escândalos, sem se aprofundar na atuação do terceiro setor e sem informar a população sobre quem somos e o que fazemos. Infelizmente, caberá às ONGs o desafio de trabalhar para reconquistar e ampliar a confiança da população.” 

Reforçar o papel transformador que a doação possui na pavimentação de uma sociedade mais justa também surge como um ponto central, de acordo com Jonathas Azevedo, diretor executivo da Rede Comuá“É importante perceber a doação não como caridade, mas como um catalisador de transformações, movido por demandas de grupos e comunidades em seus territórios. Conhecer as organizações é fundamental para construir essa relação de confiança”, opina.

Construindo caminhos

Diante desse cenário, lideranças do terceiro setor avaliam que, mais do que prestar contas, é preciso cultivar relações próximas, demonstrar impacto de forma tangível e comunicar com clareza os valores que sustentam cada iniciativa.

“Essa crise de confiança é um grande desafio para a sustentabilidade e captação de recursos. Cada vez mais as organizações que souberem ser transparentes, prestar contas, criar narrativas engajadoras, demonstrar seus resultados, vão surfar melhor nessa onda de desconfiança”, comenta Fernando Nogueira, diretor executivo da ABCR – Associação Brasileira de Captadores de Recursos.

Ponto de vista partilhado por Patrícia Kunrath. “A construção de relações sólidas é fundamental para o fortalecimento da confiança. É preciso trabalhar em alinhamento de valores das pessoas, instituições e causas sociais e ambientais que surgem por ações para o bem comum.”

Nesse percurso, alguns elementos podem fortalecer ou fragilizar a construção dessa confiança. Fernando Nogueira chama atenção para os fatores pessoais – como indicação de OSCs por pessoas próximas, conhecer quem trabalha na organização, ser ativista daquela causa, ou já ter sido beneficiado por ela – e impessoais – prestação de contas, auditorias e demonstração de resultados. “A gente tende muito mais a doar quando, além desses fatores impessoais, temos a confiança mais próxima da nossa identidade, dos nossos valores”, acrescenta.

Nildamara Torres, coordenadora de Pesquisa da Iniciativa PIPA aponta outros critérios que considera importantes, como: adaptar formatos de prestação de contas, realizar devolutivas presenciais em rodas de conversa, desburocratizar formatos de avaliação e criar protocolos conjuntos de accountability com os grupos apoiados. 

“Acreditamos que a confiança é sustentada por vínculos contínuos, construídos com base em reconhecimento, tempo e presença, e que só é possível cultivá-la com práticas concretas de redistribuição de recursos, escuta ativa e responsabilidade compartilhada”, afirma.

Vivian Fasca, também integrante do Comitê Gestor da Sociedade Viva, representando o Movimento por uma Cultura de Doação, afirma que a prestação de contas não deve ser entendida apenas como uma obrigação burocrática. 

“A transparência vai além. Não basta disponibilizar uma demonstração financeira no site. É, por exemplo, produzir um relatório anual que apresente os projetos desenvolvidos, o impacto gerado, de onde vieram os recursos, como foram aplicados. É fundamental contar histórias de impacto positivo, tornando tangível a transformação promovida. Esse tipo de comunicação gera proximidade e segurança para que as pessoas se sintam confortáveis em apoiar.”

Em um sentido macro, Beatriz Waclawek, gerente de Investimentos Sociais do Movimento Bem Maior, atrela a cultura de doação no Brasil à necessidade de fazer a sociedade compreender amplamente o papel social que esse ato carrega. 

“É muito importante enxergar que a doação não é apenas uma transferência de recurso. A doação tem a ver com o fato de se reconhecer como parte de uma comunidade maior, que aquela ação está complementando outra e juntas elas vão se transformar em impacto social”, avalia Beatriz, que ainda defende o papel da comunicação estratégica. 

“Eu tenho uma sensação que é muito mais sobre uma narrativa que está desalinhada entre esses dois públicos do que, de fato, uma necessidade de maior transparência. Tem a ver com a estratégia de comunicação”, completa.

Para superar os obstáculos

Para avaliar esse cenário de crise de confiança, no entanto, Keila Simpson, membra da Diretoria Executiva da Abong, dá alguns passos atrás. Ela lembra que para muitas OSCs brasileiras não é tão simples dedicar parte dos recursos que consegue captar, para investir em processos de auditoria ou em uma boa comunicação com seus doadores e financiadores.

“É preciso compreender a dimensão das instituições brasileiras que requerem essas doações. Há organizações que são bem estruturadas, que têm captadores contratados, e aquelas que ainda não acessaram a qualificação necessária para apresentar seus resultados aos doadores de forma consistente”, pondera.

A ativista ressalta ainda que a capacitação de quadros dentro dessas organizações para ocupar tais posições é um grande desafio, especialmente porque muitas equipes são formadas por voluntários que precisam conciliar a atuação nas OSCs com outros trabalhos para garantir sua própria subsistência. Por isso mesmo, ela defende que os financiadores busquem, apesar das limitações de tempo, conhecer de perto a realidade das iniciativas que apoiam. Uma estratégia que Keila também aponta, é que sejam oferecidas mentorias específicas, para acompanhar de perto a execução do recurso pelas organizações, e auxiliar em etapas mais desafiadoras, como o processo de prestação de contas.

“Em pesquisas da Associação Nacional de Travestis e Transexuais (Antra) e da Associação Brasileira de Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis, Transexuais e Intersexos (ABGLT), notamos que há muitas organizações inadimplentes porque faltou apenas um documento ou nota fiscal pequena. Mas nenhuma delas aplicou o recurso para outro fim que não o proposto. É importante garantir a qualificação dessas pessoas.”

Desafios que, de acordo com Nildamara Torres, revelam a realidade de organizações que ainda são prejudicadas pelo racismo, por exemplo, que define os setores que merecem confiança ou não. “É preciso pensar em formas de pluralizar os sujeitos envolvidos nas decisões sobre o recurso e redistribuir o poder que historicamente permaneceu concentrado nas mãos de poucos atores da Filantropia e do ISP”. 

De acordo com o Censo GIFE 22-23 vai demorar cerca de 60 anos até que todos os conselhos deliberativos do setor filantrópico tenham pelo menos uma pessoa negra. “Para nós, construir confiança significa enfrentar as marcas de um passado (e presente) em que sujeitos negros e periféricos não foram considerados confiáveis para gerir recursos ou representar seus próprios territórios”, reforça Nildamara Torres.

“A confiança está ligada também ao reconhecimento do protagonismo, da autonomia e dos saberes de organizações e movimentos da sociedade civil em criar soluções para transformar suas realidades, já que são eles que melhor conhecem o que é preciso fazer para que isso aconteça. É uma via de mão dupla”, acrescenta Jonathas Azevedo.

Na busca por contornar esse cenário, Fernando Nogueira destaca que embora existam ações que organizações podem investir por conta própria, algumas questões são coletivas e dependem de um ativismo do setor. “Tem macrotendências que afetam o setor: muitos grupos têm propagado desinformação sobre OSCs, como organizações que estariam roubando a Amazônia. Precisamos cada vez mais agir em vozes fortes coletivas para nos comunicar melhor e defender a importância do setor.”

Foi com essa preocupação que ABONG, ABCR, GIFE, Plataforma MROSC, Movimento pela Cultura da Doação, Observatório do Terceiro Setor, Instituto ACP, Greenpeace Brasil e Ação da Cidadania passaram a trabalhar, desde 2022, no desenvolvimento de uma estratégia de comunicação contínua para fortalecer a confiança da sociedade nas OSCs: a Sociedade Viva.

Christiane Sampaio, coordenadora executiva da iniciativa, lembra da CPI das ONGs no Senado Federal, em 2023, quando um monitoramento realizado pelo NetLab/UFRJ revelou como grupos organizados atuaram para influenciar o debate público, gerando polêmica e inversão de fatos. Outro estudo, realizado pela FGV Comunicação Rio, demonstrou como o debate digital sobre ONGs está contaminado por teorias conspiracionistas e estigmas. 

“Diante desse cenário, uma das prioridades para os próximos anos deve ser monitorar de forma contínua o debate público sobre as OSCs no ambiente digital. Outra agenda prioritária é realizar um trabalho de diálogo e articulação com jornalistas, influenciadores e tomadores de decisão para ampliar e qualificar o repertório sobre o papel das OSCs”, projeta Christiane Sampaio.

Como construir relações baseadas na confiança

  • Alinhar valores entre doadores e organizações
  • Fortalecer vínculos pessoais e coletivos
  • Redistribuir recursos com responsabilidade compartilhada
  • Ir além da prestação de contas formal e praticar accountability colaborativa
  • Investir em comunicação estratégica e engajadora
  • Cultivar presença, tempo e continuidade

PESSOAS ENTREVISTADAS

Andréa Wolffenbüttel

Beatriz Waclawek

Christiane Sampaio

Fernando Nogueira

Nildamara Torres

Jonathas Azevedo

Keila Simpson

Patrícia Kunrath

Vivian Fasca

Expediente

Natália Passafaro
COORDENAÇÃO DE COMUNICAÇÃO

Geovana Miranda
ANALISTA DE COMUNICAÇÃO

Afirmativa
REPORTAGEM/TEXTO

Marina Castilho
DESIGN & DESENVOLVIMENTO

Por: Gife

Fonte: gife.org.br

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