Agenda climática ganha espaço em diferentes áreas do investimento social privado

O Censo GIFE 2024–2025 mostra que 6% do investimento realizado pelas organizações respondentes foi destinado a iniciativas relacionadas ao clima. A proporção é três vezes maior que os 2% identificados globalmente

A crise climática deixou de ser uma questão restrita à agenda ambiental.  Ondas de calor, enchentes, secas prolongadas e a deterioração da qualidade do ar afetam o funcionamento de escolas, sistemas de saúde, equipamentos culturais, serviços públicos e organizações da sociedade civil (OSCs). Esses impactos não se distribuem de forma igual: territórios e populações que já enfrentam situações de vulnerabilidade tendem a estar mais expostos aos efeitos dos eventos extremos e a ter menos recursos para responder a eles.

Nesse cenário, a agenda climática passa a atravessar áreas tradicionais de atuação do investimento social privado (ISP), como educação, saúde, cultura, gênero, raça e inclusão produtiva. A mudança não significa necessariamente que as organizações precisem criar uma nova frente dedicada ao clima, mas que incorporarem seus efeitos e implicações às estratégias que já desenvolvem. Como sintetizou Ana Toni, CEO da COP30, “não é mudar de tema, é trazer a perspectiva climática para o que já se faz”. É essa abordagem que o GIFE vem buscando estimular entre suas organizações associadas.

“Uma filantropia que trabalha educação, por exemplo, pode incorporar o clima de várias formas. Já tem estudos que mostram como o calor extremo dificulta a capacidade de aprendizagem e como nosso sistema educacional não tem estrutura para se adaptar em relação a eventos climáticos extremos, como enchentes”, exemplifica Pedro Bocca, coordenador de Relações Internacionais e Políticas Públicas do GIFE.

O mesmo raciocínio pode ser aplicado a outras agendas. Uma organização que trabalha com saúde pode considerar os impactos dos eventos extremos sobre os serviços e sobre populações mais expostas; programas direcionados a raça, gênero ou território podem observar como as desigualdades ambientais se sobrepõem a desigualdades já existentes; na cultura, é possível observar que eventos extremos já afetam museus, centros culturais, acervos históricos e espaços comunitários em diferentes regiões do país. Mas os impactos vão além da infraestrutura física: mudanças no regime de chuvas, secas prolongadas e degradação ambiental ameaçam práticas agrícolas tradicionais, celebrações populares, formas de transmissão oral de conhecimento e modos de vida profundamente ligados aos territórios.  

Mariana Resegue, diretora executiva do C de Cultura, conta que, desde 2023, quando a organização começou a pesquisar sobre as intersecções entre Cultura e Clima, notaram uma aproximação entre as agendas e como a Cultura é diretamente afetada pela crise climática. Eventos climáticos extremos interrompem atividades e geram insegurança econômica para os trabalhadores, enquanto incêndios, secas, ondas de calor e enchentes, cada vez mais frequentes no Brasil, ameaçam o patrimônio material e imaterial do país. 

“Um caso emblemático é o da comunidade Enawenê Nawê, que realiza o ritual Yãokwa e enviou um ofício ao IPHAN em 2012 pedindo peixe, porque não havia mais peixe suficiente nos rios para realizar o ritual devido às mudanças no regime do rio. O ritual dependia diretamente da disponibilidade do recurso natural”. Por isso, a organização defende que é preciso construir uma governança cultural para a agenda climática.

Como a agenda climática atravessa o investimento social privado?

Esse movimento também aparece nos recursos destinados à agenda climática. O Censo GIFE 2024–2025 mostra que 6% do investimento realizado pelas organizações respondentes foi destinado a iniciativas relacionadas ao clima. Como referência internacional, dados da ClimateWorks Foundation indicam que o financiamento filantrópico global para mitigação climática correspondeu a cerca de 2,1% do total de doações em 2024.

Para Pedro Bocca, o percentual brasileiro está relacionado, em parte, à incorporação da agenda climática por organizações que já atuavam em outras frentes, mas também precisa ser compreendido a partir das características do financiamento climático no país, que possui uma trajetória própria de fundos verdes e incentivos ambientais. O coordenador cita ainda o Compromisso Brasileiro da Filantropia sobre Mudanças Climáticas, documento que reúne atualmente 47 signatários e que tem ajudado a acompanhar os recursos destinados à agenda climática.

Especificamente na intersecção entre cultura e clima, Mariana Resegue afirma que o financiamento ainda é incipiente. A diretora cita dados do próprio Censo do GIFE, que mostram que apenas 4% das organizações associadas identificaram cultura e arte como uma área prioritária de atuação. O levantamento também aponta uma queda de 30% no volume de recursos destinados à área. Para ela, há uma tendência do setor a reagir ao desastre mais do que preparar os territórios para enfrentá-lo. 

Dois estudos do GIFE sobre o tema apontam a fragmentação das ações entre diferentes áreas e a dificuldade de incorporar a dimensão climática como desafios para as organizações que não atuam diretamente com o meio ambiente. Segundo Pedro Bocca, esse cenário vem mudando, mas ainda há instituições que não reconhecem uma relação direta entre sua atuação e a agenda climática. 

De acordo com ele, essa separação dificulta a compreensão de que os efeitos das mudanças climáticas já interferem em praticamente todas as áreas de atuação do ISP. “Estamos num momento de profunda crise climática em que a existência do planeta está posta em risco e sem planeta não tem filantropia. O que a gente tem tentado colocar à luz é o entendimento do clima como algo estruturante. Não dá só para os ecologistas pensarem em clima, tem que ser uma preocupação de todos nós”, finaliza.

Por: GIFE

Fonte: gife.org.br

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