“Durante a graduação, um livro marcou especialmente minha trajetória: Diante da dor dos outros, de Susan Sontag. Ao refletir sobre o que significa olhar para imagens do sofrimento alheio, a autora me fez pensar não apenas sobre aquilo que vemos, mas também sobre a posição que ocupamos diante da dor de outras pessoas. Essa questão ainda me inquieta quando penso sobre a comunicação de causas socioambientais e, inevitavelmente, nasce a pergunta: Quando uma história de sofrimento é usada para sensibilizar, mobilizar pessoas ou incentivar uma doação, o que acontece com a pessoa que está no centro dela?
“O tema ganha novos contornos em meio a acontecimentos recentes. O governo de Burkina Faso aprovou um decreto para regulamentar as intervenções humanitárias no país. Entre as novas regras, está a proibição de exibir imagens de pessoas em situação de vulnerabilidade ao lado das doações recebidas por ONGs e agências humanitárias. A medida nos convida a refletir sobre as práticas e limites da comunicação de causas que dissemina imagens apelativas em nome da captação de recursos.
“É claro que comunicar situações de vulnerabilidade é necessário. O problema não está em mostrar a dor, mas em transformá-la na identidade de quem a enfrenta. É o que mostra uma pesquisa realizada pela Save the Children. Intitulado The people in the pictures – Vital perspectives on Save the Children’s image making (As pessoas nas imagens – Perspectivas fundamentais sobre a produção de imagens da Save the Children), o objetivo do estudo foi compreender a percepção das comunidades atendidas sobre o modo de produção e disseminação de suas imagens. No documento, é possível ler sobre uma jovem refugiada síria que afirmou “Não quero ser um objeto”.
“Para ela, a câmera nas mãos de outra pessoa poderia transformá-la em objeto de uma narrativa que iria congelar a dor como sua única identidade. Ao reivindicar ser vista para além da situação de vulnerabilidade que atravessava, a jovem explicitou um aspecto essencial da comunicação de causas: a dignidade das pessoas retratadas. Esse elemento precisa fazer parte da história que contamos sobre elas. (…)”
Fonte: escolaaberta3setor.org.br