Ao entrar para a fila de transplante de rins, em 2017, Giovanna transformou a luta pela vida em ativismo em prol da doação de órgãos; ela criou o Instituto Deixe Vivo, que atua com a missão de despertar na sociedade a cultura de doação de órgãos e tecidos
Estamos sempre em busca de um propósito para as nossas vidas. No entanto, precisamos lembrar que ele também pode existir na morte. O ato de doar se torna ainda mais relevante quando falamos da doação de órgãos, um gesto de empatia capaz de salvar vidas, no sentido literal.
Apesar do impacto e relevância dessa ação, o cenário de doadores no Brasil continua longe do ideal. Conforme o Ministério da Saúde, em 2025, o país tinha mais de 80 mil pessoas na fila para um transplante.
É com a missão de despertar na sociedade a cultura de doação de órgãos e tecidos que surge o Instituto Deixe Vivo, criado pela paciente renal Giovanna Fiori.
Sejam bem-vindos ao projeto “Eu Sou 3° Setor”, criado para dar voz a lideranças simbólicas da sociedade civil e evidenciar o poder de transformação das organizações sociais. Eu sou Lucas Neves, jornalista do Observatório do Terceiro Setor, e neste episódio conheceremos a trajetória de Giovanna Fiori.
Giovanna é paciente renal desde os seus 4 anos. Ela descobriu um problema crônico, sem cura, que a levou à perda da função dos rins aos 25 anos. Nesse período, Giovanna entrou na lista de espera por um transplante de órgãos no Brasil.
“Fui atrás de alguns dados sobre o funcionamento da lista de espera. Naquela época, em 2017, eram aproximadamente 28 mil pessoas na espera por um órgão e eu sabia que ia entrar nessa lista”, comenta Giovanna.
Neste período surgiu o Deixe Vivo, inicialmente como um perfil nas redes sociais para contar a sua história: “uma mulher de 25 anos na hemodiálise esperando por um transplante”. No meio digital, o projeto cresceu ao longo dos anos, inspirando, acolhendo e informando cada vez mais pessoas.
“Em 2019, no dia 23 de maio, recebi uma ligação da médica informando que eu tinha uma doadora compatível e fui realizar o transplante”.
Após ser transplantada, Giovanna conta que o Deixe Vivo ganhou ainda mais força e atingiu mais pessoas. Mas, em 2021, ocorreu outro ponto de virada importante para o projeto, a participação do programa The Wall, do Luciano Hulk, onde ganhou um prêmio utilizado para alavancar a sua iniciativa.
“Ganhei o prêmio e consegui crescer ainda mais. Pensei assim, será que tem mais gente que quer falar sobre doação de órgãos comigo? Então, abri um formulário no meu Instagram e tinham, sim, outras pessoas. A gente criou a Rede Deixe Vivo”.
Ela conta que essa rede era um coletivo focado em ações e campanhas que envolviam doação de órgãos, além de abordar temas como a importância de cuidar da saúde renal e representatividade de pacientes transplantados.
No entanto, Giovanna queria mais. A ideia era formalizar o projeto, tornando-o algo maior que um coletivo. “Eu fui estudar sobre o terceiro setor, entender como funcionavam as ONGs. A gente criou um estatuto e tudo mais. Em abril de 2022, o Deixe Vivo virou uma Organização da Sociedade Civil (OSC).”
O Instituto Deixe Vivo trabalha para conscientizar sobre a doação de órgãos no Brasil, inspirando as pessoas a se tornarem doadoras. Também atua acolhendo pessoas com doenças renais crônicas e pessoas na fila de espera por um transplante.
Nos próximos 5 anos, a organização espera se posicionar como o maior movimento de conscientização e inspiração sobre transplante de órgãos e tecidos no Brasil. Atualmente, são milhares de pessoas impactadas por todo o país pelos conteúdos, ações, eventos, campanhas e treinamentos promovidos pela Organização.
Em novembro de 2025, O Instituto Deixe Vivo lançou nova websérie documental para contar histórias de transplantes de órgãos, resiliência e coragem. O projeto “Vidas que cabem no SIM” terá 5 episódios, lançados no canal do YouTube do instituto e no Instagram, gratuitamente.
Nesse sentido, Giovanna conta que a informação é um dos pontos cruciais do instituto. “É nesse nosso pilar de informar — justamente através das nossas palestras, das ações, dos conteúdos e das redes sociais — que vamos transformar o cenário da doação no Brasil”.
Ela também exalta a importância das ferramentas digitais, como as redes sociais, para difundir informação e alavancar a causa, afirmando que a utilização de plataformas (YouTube e Instagram) foram fundamentais para o crescimento do Instituto Deixe Vivo.
“A informação transforma e salva vidas, ainda mais no caso da doação de órgãos. Quando você informa a sua família que você quer ser um doador, você está dando a chance de salvar até oito pessoas,” comenta.
Giovanna ressalta que, durante o trabalho de comunicação, é necessário sempre lembrar desse impacto gerado pela doação de órgãos e, sobretudo, estimular a empatia. “A chance de você precisar de um transplante é quatro vezes maior do que você ser efetivamente um doador”.
Outro pilar do Instituto Deixe Viver é o acolhimento. Em um cenário onde a fila de espera por transplantes de órgãos cresce, atingindo 80 mil pessoas, Giovanna enxerga o trabalho de acolher como algo fundamental.
Enquanto uma paciente renal que precisou esperar pelo transplante, Giovanna entende bem a necessidade de prestar suporte a essas pessoas. “Eu digo que esperar por um transplante é como esperar por algo que vai transformar, mudar, salvar a sua vida, mas que você não sabe quando vai acontecer.”
Ao conversar com Giovanna sobre a doação de órgãos, fica perceptível a importância de estimularmos esse hábito na sociedade. Afinal, a partir de um simples gesto — uma conversa com a família — é possível salvar diversas vidas.
Estamos sempre em busca de um propósito para a nossa vida. No entanto, precisamos lembrar, esse propósito também pode existir na morte.
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Por: Lucas Neves
Redação Observatório 3º Setor
Fonte: observatorio3setor.org.br