Entre a centralidade climática e a retração do financiamento: os desafios para a filantropia e os direitos humanos em 2026

Marcado pela COP30 em Belém, pela Marcha das Mulheres Negras por Reparação e Bem Viver e por uma conjuntura internacional de retração de financiamentos, 2025 foi um ano de mobilizações importantes para a sociedade civil brasileira. 

Para compreender os avanços, os limites e os alertas que 2025 deixa para a filantropia e os direitos humanos, o redeGIFE ouviu Ana Valéria Araújo, diretora-executiva do Fundo Brasil de Direitos Humanos. Advogada, mestra em direito internacional pela American University, especializada em direitos indígenas e na defesa dos direitos socioambientais, além de sócia-fundadora do Instituto Socioambiental (ISA). 

Que balanço o Fundo Brasil faz de 2025 como um ano em que as agendas socioambientais, raciais e democráticas estiveram em ebulição? Quais foram os avanços mais concretos e as frustrações ou limites que marcaram o campo?

Não tenho a menor dúvida de que a agenda socioambiental esteve em ebulição o ano inteiro. A COP puxou muito o tema dos impactos das mudanças climáticas e das comunidades tradicionais. Com relação à pauta racial, acho que vai na direção contrária. Muito embora a gente tenha a Marcha das Mulheres Negras na sequência da COP30, a impressão é que essa pauta andou para trás em termos de atenção da sociedade e da filantropia. Tivemos uma série de eventos que deveriam ter feito a pauta racial se manter em alta, as inúmeras demonstrações do quanto o país é violento com a população negra. No universo internacional, tivemos cortes de programas de equidade, então a gente assistiu estarrecido essa pauta se invisibilizar gravemente, e para o setor da filantropia mais ainda. Deixamos de avançar com uma pauta que é absolutamente fundamental para o nosso país. No Fundo Brasil, todo o nosso trabalho é pensar na necessária interseccionalidade. É verdade que o planeta inteiro está sendo impactado, mas alguns grupos são mais impactados que outros. 

A COP30 no Brasil fez com que a agenda climática deixasse de ser uma ‘pauta de nicho’ e se tornasse eixo político central. Como vocês avaliam essa guinada do ISP para o clima, dado que 46% dos respondentes do novo Censo GIFE declararam atuar ou financiar iniciativas na área? 

É um dado bem-vindo. Essa é uma pauta absolutamente relevante para a humanidade. O que eu pondero? A Rede Comuá, por exemplo, tem tentando há bastante tempo dar visibilidade ao tipo de trabalho feito por seus fundos, que é colocar os recursos na mão de povos indígenas, comunidades tradicionais, populações na base da sociedade, que não apenas são as mais vulneráveis e impactadas, mas aquelas que estão produzindo soluções locais, genuínas, capazes de preservar o meio ambiente, e, portanto, aquelas que precisam ser financiadas. Infelizmente, os dados mostram que os recursos climáticos não chegam na ponta. Estão financiando a iniciativa privada, grandes startups para transição energética, porém o dinheiro não chega para povos e comunidades tradicionais ou para a população na periferia. Ao mesmo tempo em que eu celebro esse dado, eu questiono o quanto desses 46% está efetivamente chegando onde precisa. 

Outro debate que também se manteve em alta esse ano foi a necessidade de desburocratizar o acesso a recursos, fortalecer o grantmaking e ampliar o apoio institucional, especialmente para organizações de base. Que aprendizados esse ano deixa sobre a importância de financiar a “ponta”? 

Uma experiência que eu não posso deixar de destacar foi a nossa ideia de criar a Casa Sul Global, que construímos entre os fundos da Comuá e da Aliança de Fundos do Sul. A gente se juntou com objetivo de trazer a discussão do financiamento climático e a necessidade de fazer isso chegar na ponta para povos e comunidades por meio de grantmaking. E aconteceu uma imensa participação social, propiciada por fundos e fundações comunitárias que efetivamente apoiaram a ida de movimentos sociais para estarem na COP30. Disso decorreu, por exemplo, a Cúpula dos Povos, que foi um sucesso, e foi capaz de atrair a presidência da COP para ouvir essas diferentes vozes. Esse tipo de apoio à participação social é o que efetivamente é capaz de trazer condições da filantropia de efetivar a transformação social. Porque quando você apoia esse tipo de coisa maciçamente, você gera capacidade para essas vozes estarem nos espaços de decisão estratégica. Uma lição a compartilhar com o mundo da filantropia, é que apoiar essa participação social passa não por dar uma grande doação de milhões de reais para uma organização, mas ter capacidade de fazer pequenas doações e capilarizar elas, espalhar pelos movimentos sociais. É preciso capacidade de operacionalizar, conhecer os movimentos, saber quem são as organizações na ponta para fazer o recurso chegar para todos eles. Para isso é preciso ter procedimentos muito simplificados, e uma relação de confiança muito grande. Você tem que saber que as organizações vão fazer o que estão dizendo que vão fazer, porque se a gente tivesse um nível de burocracia muito grande para acessar esses recursos, as comunidades não teriam conseguido chegar lá. 

O ano de 2025 foi marcado pela Marcha das Mulheres Negras por Reparação e Bem Viver, um dos maiores acontecimentos políticos do ano. Na mesma toada, o Mês da Filantropia Negra trouxe o eixo “Sankofa: memória e reparação”. Houve avanço no reconhecimento, por parte de investidores sociais e filantropos, de que reparar exige redistribuir poder decisório e recursos? O que ainda está travando essa agenda?

A Marcha foi um evento absolutamente relevante, que marcou e trouxe para a agenda uma pauta que estava invisibilizada. Foi um demonstrativo do que a participação social das mulheres negras pode fazer. Mas não dá para a gente esquecer que a Marcha foi o que foi, apesar da imensa dificuldade de se financiar. Ainda durante a Marcha, nossa equipe estava conversando com as organizadoras, e todo mundo muito preocupado com um monte de conta pendurada. Por que elas não acessaram recursos? Porque o tema tá travado, ninguém quer apoiar. E não é só no Brasil, é uma conjuntura política internacional fascista, que elegeu o tema racial como um dos seus inimigos, pretende inviabilizá-lo e tem feito isso estrangulando o financiamento. Paralelamente a isso, há cortes em instituições de filantropia internacionais, que tradicionalmente apoiavam essa pauta e que, de repente, vão ficando caladas. Quando as empresas encerram seus programas de equidade, elas estão tomando decisões políticas. Falta tomar consciência de que essa pauta tem que estar no centro das prioridades da sociedade brasileira. Olhando para a filantropia, o que ainda trava é a dificuldade de financiamentos de longo prazo, flexíveis, desburocratizados e voltados para fortalecimento institucional e garantia da continuidade do trabalho. 

Que temas de direitos humanos ficaram “invisíveis” ou menos priorizados em 2025, mesmo diante de um calendário tão cheio, e que podem retornar com força em 2026? 

Queria destacar um tema que pra gente é de total preocupação: os defensores de direitos humanos. São lideranças que em função da sua militância em defesa dos direitos de determinados grupos sofrem perseguição. Quem trabalha com defesa de direitos, tende a naturalizar a violência, e não deveria ser assim. Isso precisa ser objeto da atenção de quem quer promover avanços na defesa dos direitos. Esse país é conhecido por inúmeros assassinatos de lideranças indígenas, de trabalhadores rurais, de lideranças LGBTQIA+. Razão pela qual o Fundo Brasil já há algum tempo apoia organizações que trabalham na proteção de defensores de direitos humanos. Em 2026, ano eleitoral, a tendência desse índice de ameaças e violência é se agravar. É quando as lideranças dos diversos movimentos sociais estão pleiteando para que suas pautas sejam vistas dentro da agenda eleitoral e incorporadas pelos candidatos. Portanto, para 2026, essa é uma preocupação especial. 

Sobre os temas que ficaram invisíveis e podem retornar em 2026, pontuo a questão racial, que precisa voltar a ser priorizada, e a pauta de gênero. O número de feminicídio é um escândalo nesse país. A pauta da violência contra a mulher precisa ser trazida para 2026 e é determinante. Falo também da pauta LGBTQIA+, que ficou muito invisibilizada por conta das escolhas e decisões internacionais. Houve um corte muito brutal de recursos. Um último tema, também muito pouco falado no campo da filantropia, é o trabalho digno. É uma questão absolutamente relevante e deveria ser pauta fundamental de qualquer discussão em ano eleitoral. São pautas que se não aparecerem na agenda de 2026 temos o dever de trazer, porque são cruciais e estão invisibilizadas, mas precisam estar no centro das nossas discussões se quisermos avançar com democracia.

Por: Gife

Fonte: gife.org.br

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