O desafio do ISP em transformar dados em mudanças efetivas

Apesar da ampla produção de estudos sobre desigualdades, o ISP ainda enfrenta o desafio de converter diagnósticos em ações sistêmicas. No especial redeGIFE de outubro, abordamos os obstáculos de traduzir dados e análises em mudanças concretas e impacto social.

O Investimento Social Privado (ISP) tem ampliado significativamente a produção de pesquisas sobre desigualdades de gênero, raça, orientação sexual, território e outros marcadores sociais. Embora o volume de dados seja expressivo, o impacto concreto nos territórios ainda permanece aquém dos objetivos anunciados. Nesse cenário, a distância entre relatórios e realidade segue como um dos principais entraves para que o conhecimento acumulado se traduza em mudanças estruturais.

“Ainda tratamos desigualdades como questões técnicas e quantificáveis, quando na verdade são questões políticas, que exigem responsabilização e não apenas reconhecimento”, alerta Yasmin Morais. A assessora de programas da Rede Comuá ressalta que muitas instituições seguem operando com aversão ao risco, o que bloqueia o avanço em agendas mais transformadoras.

“A filantropia não é neutra. Decidir quem recebe ou não recursos é um ato político. Ainda estamos presos à uma lógica de resultados rápidos, que é profundamente influenciada por uma lógica de mercado. As transformações reais são de longo prazo, estruturais, e requerem desapego de métricas imediatistas.”

YASMIN MORAIS, assessora de programas da Rede Comuá

Ponto de vista reiterado por Rosana Fernandes, que integra a equipe do Setor  de Projetos da Coordenadoria Ecumênica de Serviço (CESE). “Há um distanciamento muito grande sobre o conhecimento da realidade entre as pessoas que vivem no território e as pessoas que financiam esses estudos científicos, que são importantes. Mas, se não houver a participação das pessoas que estão nos territórios, é impossível que isso se transforme em política”, opina.

Ana Carolina Lourenço, diretora programática do Instituto Cultura, Comunicação e Incidência, tem uma perspectiva macro sobre o problema. Para ela, a filantropia é mais um dos campos que, diante das múltiplas crises enfrentadas no atual contexto global, tem lidado com um sentimento de paralisia.

“Pensando na filantropia em específico, essa ênfase em uma infodemia, que é uma epidemia de informação, tem a ver com uma série de coisas. Então acho que isso é um sintoma de um momento da história em que a gente atravessa uma dimensão policrítica e que parece que o conjunto de soluções possíveis são insuficientes para o problema.” 

Ainda assim, o ISP possui um papel estratégico no fortalecimento da sociedade civil e na pavimentação de caminhos rumo à justiça social. É o que destaca Guilherme Romano, coordenador de Parcerias da Área de Desenvolvimento Socioambiental da Suzano, ao explicar que essa dinâmica acontece em duas vertentes complementares. 

“Por um lado, como investidor direto, respeitando suas premissas e fortalecendo iniciativas com recursos estratégicos. E por outro lado, como catalisador de novos investimentos, tanto por participar do projeto e dar essa chancela reputacional, como atuando diretamente no apoio à mobilização de novos recursos com sua rede de relações e parcerias”, explica. 

No entanto, quando essa lógica não se concretiza, muitos diagnósticos deixam de gerar os efeitos esperados. Em diversas situações, relatórios são produzidos, divulgados e até celebrados, mas não se desdobram em práticas capazes de transformar a realidade dos territórios. 

“Me arrisco a apontar os principais [problemas]: a falta de visão e estratégia de longo prazo das organizações no que se refere ao ISP; questões de mercado  (volume de recursos, público, território, perfil do investimento, etc.), que influenciam diretamente na dinâmica do negócio e, consequentemente, no ISP”, exemplifica Guilherme Romano. 

Ele ainda acrescenta que os próprios diagnósticos e planos frequentemente apontam a necessidade de investimentos estruturantes, em larga escala e com perspectiva de longo prazo, já que as mudanças pretendidas são complexas e atravessadas por diferentes contextos. Apesar disso, muitas vezes falta o engajamento de parceiros capazes de oferecer conhecimentos e recursos complementares, condição indispensável para a construção e implementação de práticas coletivas consistentes.

Matheus Viana, coordenador de Programas e Projetos da Pacová, observa ainda outros obstáculos no caminho para levar o diagnóstico à ação: excesso de burocracia, falta de confiança nas organizações de base, e uma centralização de recursos em grandes instituições, geralmente localizadas no eixo Rio–São Paulo.

“O ISP ainda doa pouco de forma direta, preferindo financiar projetos de curto prazo, na lógica tradicional de editais e de pautas que têm geralmente maior apelo de visibilidade. Isso faz com que, mesmo diante de tantos diagnósticos e relatórios, a prática siga bastante distante da realidade dos territórios.”

A escuta enquanto estratégia

Um exemplo das discussões mais recentes sobre o tema aparece no relatório Como organizações financiadoras de projetos sociais no Brasil escutam, de outubro de 2023. O estudo destaca a escuta inclusiva como uma ferramenta relevante para estreitar relações com pessoas e grupos impactados pelos serviços filantrópicos.

58% – das organizações financiadoras utilizam a escuta para aprimorar seu impacto

50% – para compreender melhor os problemas sociais que pretendem enfrentar

33% – das organizações possuem canais institucionais para receber feedback

8% – afirmaram contar com mecanismos formais para informar de volta as decisões tomadas a partir das contribuições recebidas*

“Há queixas das pessoas dos territórios que falam que muitas vezes elas são objetos de estudos e não recebem a devolução desses estudos para a comunidade. Então, eu acho que isso é uma falta grave daquele profissional, daquela instituição”, comenta Rosana Fernandes.

“Esses instrumentos são, ao lado dos processos de escuta ativa e de cocriação com as comunidades e públicos diretamente envolvidos, fundamentais para orientar a forma, volume, momento, locus para que o investimento seja aplicado de forma mais assertiva”, observa Alessandra Peixoto, diretora do Instituto Localiza.

Ela ainda elenca fatores que considera essenciais e resolutivos: o desenho de soluções experimentais para testar a intervenção e o monitoramento próximo para ajustar e escalar as práticas que demonstraram resultado.

Instituto Localiza transformou diagnósticos em soluções com dois projetos-piloto voltados à juventude. O primeiro, Residência Social, respondeu à dificuldade do primeiro emprego em tecnologia, marcada pela exigência de senioridade. Durante seis meses, jovens receberam prática intensiva e mentoria de alto nível com profissionais do Localiza Labs, ampliando competências técnicas e comportamentais. O êxito levou à expansão prevista para 2025. 

O segundo foi o Companheiro de Rota, que surgiu diante do abandono precoce do emprego por jovens recém-contratados. A iniciativa conectou cada participante a um mentor voluntário, garantindo apoio e visão de futuro. O resultado: 100% de permanência após o período de experiência. “Também anualmente, fazemos de forma virtual uma escuta com as organizações e revisitamos as publicações de dados sobre nossa área de atuação para a identificação de novas oportunidades e ajuste de rotas”, complementa Alessandra Peixoto.

Mudanças estruturais

Para encurtar a distância entre relatórios e a realidade, de modo que os dados acumulados se convertam em mudanças estruturais, orientando decisões e projetos, Matheus Viana defende uma mudança radical de paradigmas no ISP. Para ele, é necessário a construção de um novo modelo de filantropia baseado na solidariedade, que confie nos sujeitos coletivos e fortaleça quem já está construindo soluções nos territórios.

“Isso envolve oferecer recursos flexíveis e de longo prazo, simplificar processos, criar diferentes formas de apoio para organizações menores ou informais e envolver essas organizações na definição de critérios e prioridades.”

Diversificar a governança, ampliando a presença de pessoas negras, indígenas, LGBTQIA+, periféricas e de outras comunidades historicamente marginalizadas dos processos de tomada de decisão, também é uma estratégia importante, conforme aponta Yasmin Morais.

Já existem bons exemplos nesse sentido. Como a pesquisa do diretor executivo da Pacová, Albert França, no Programa Saberes da Rede Comuá, que gerou um guia para mobilização de recursos para movimentos sociais, embrião do Fundo de Apoio a Organizações Populares. 

“Outro bom exemplo é o Guia das Periferias para Doadores e a pesquisa Periferias e Filantropia da PIPA, que acabou desembocando no Fundo POP. A Comuá e a CESE também são organizações que vejo, transformando sempre publicações em ação”, cita Matheus Viana.

Parte do caminho apontado por Ana Carolina Lourenço para avançar nesse cenário, passa por reforçar mais nas organizações e lideranças cívicas uma atuação mais articuladora e estratégica. “Aceitar que parte dessas soluções precisam ser co-criadas, criar espaços de concertação e entender que eles são fundamentais para endereçar respostas mais concretas e com intervenções mais diretas nos territórios.”

O papel desempenhado pelo ICCI como facilitador na construção do planejamento de comunicação da Marcha das Mulheres Negras 2025, para Ana Carolina, exemplifica esse esforço por espaços de concertação. “Nossa experiência foi além de mobilizar recursos. É sobre colocar as lideranças das organizações, dos movimentos, para entender como diversificar esses esforços e cooperar.” 

Iniciativas que dão certo

Para Yasmin Morais, há muito o que aprender com a filantropia comunitária e de justiça social. Em organizações que integram a Rede Comuá, por exemplo, ela chama atenção para exemplos como o apoio às brigadas comunitárias do Fundo Casa Socioambiental.

“O Fundo e comunidades apoiadas observaram que grandes incêndios têm atingido o Brasil em diferentes regiões. Sendo assim, era necessário maior apoio a brigadas comunitárias, que têm sido fundamentais no combate a essa emergência climática. Então, o Fundo abriu editais emergenciais.”

O apoio à ação política de terreiros, pelo Fundo Brasil de Direitos Humanos é outra experiência citada por Yasmin Morais. Diante de números como os do Painel de Dados da Ouvidoria Nacional de Direitos Humanos, que revelam que as denúncias de intolerância religiosa aumentaram 80% no primeiro semestre de 2024, somando 1.227 registros, tendo o Candomblé e a Umbanda como principais alvos, o Fundo Brasil lançou o edital Enfrentando o Racismo a partir da Base, como uma linha específica que busca o fortalecimento institucional de organizações de base lideradas por ativistas negros e negras.

“Essas iniciativas reforçam que um modelo de filantropia baseado na escuta ativa, na autonomia dos territórios e na justiça social é não apenas possível, mas necessário.”

Outro exemplo originado a partir do bom uso dos dados foi através da Suzano. Entre 2024 e 2025, a Mandu Social conduziu um diagnóstico socioeconômico e reputacional no Vale do Parnaíba (MA), envolvendo comunidades, lideranças, associações, cooperativas e gestores locais. O estudo identificou desafios e arranjos existentes em quatro municípios da região e apontou onde a Suzano poderia gerar maior impacto. 

“O diagnóstico visava contribuir para o direcionamento dos investimentos sociais da empresa nesse território”, disse Guilherme Romano.

A partir desse mapeamento, a empresa firmou um compromisso de três anos de aportes sistemáticos, voltados à geração de renda de agricultores familiares, à agregação de valor a seus produtos, ao fortalecimento das instituições locais e à conexão dessas iniciativas com políticas públicas e mercados consumidores.

Expediente

Natália Passafaro
COORDENAÇÃO DE COMUNICAÇÃO

Geovana Miranda
ANALISTA DE COMUNICAÇÃO

Afirmativa
REPORTAGEM/TEXTO

Marina Castilho
DESIGN & DESENVOLVIMENTO

Fonte: gife.org.br

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