7 em cada 10 imagens entre mais compartilhadas no WhatsApp são falsas

A Agência Pública fez um levantamento para descobrir quais foram as 100 imagens mais compartilhadas em grupos públicos do WhatsApp desde início da pandemia, no Brasil. 60% delas relacionam a crise sanitária a uma conspiração chinesa.

Foram analisadas as 100 imagens mais compartilhadas entre 10 de março e 30 de julho de 2020, na base de grupos de WhatsApp do projeto Eleições sem Fake.

A iniciativa é do Departamento de Ciência da Computação da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Os grupos analisados estão relacionados à política – de diferentes espectros – e contam com mais de 18 mil usuários ativos.

Contudo, apesar de ser uma amostra robusta, não é possível saber quanto ela representa do total, devido à falta de transparência da plataforma.

Verifique antes de compartilhar

De acordo com o levantamento, entre as 10 imagens mais compartilhadas no período analisado, sete continham informações falsas ou foram usadas para disseminar desinformação.

Dessas sete, apenas uma não tinha a ver com a China. A segunda imagem mais compartilhada foi a de um atestado de óbito constando “coronavírus” como causa da morte de um homem no dia 23 de março.

A imagem do documento foi enviada 757 vezes a 189 grupos diferentes, e 94% desses envios foram feitos nos dias 28 e 29 de março.

A foto foi utilizada em diferentes redes sociais para desacreditar o número oficial de vítimas da Covid-19, que no período chegava a 114 mortos no país (hoje já são mais de 97 mil).

A imagem foi compartilhada junto com textos e áudios que afirmavam que se tratava de uma morte causada por explosão de pneu, ou outra fatalidade, e que teria sido registrada como morte por coronavírus por decisão dos governos municipais ou estaduais para inflar os números.

A imagem com o atestado de óbito também foi compartilhada por políticos e influenciadores nas redes sociais. De acordo com a Secretaria Estadual de Pernambuco, o documento foi preenchido com erro, mas a morte não foi contabilizada nos números oficiais de mortos por coronavírus.

O homem morreu por influenza A, segundo checagem do Uol no dia 29 de março. Ainda assim, a imagem circulou por pelo menos outras 41 vezes pelos grupos de WhatsApp.

Compartilhar para atenuar

No total, entre as 100 imagens analisadas, 40 abordavam a crise da Covid-19 e foram responsáveis por 56,5% dos compartilhamentos. Destas, 14 eram imagens que tentavam negar a gravidade da pandemia no país.

Os conteúdos insinuavam que a taxa de mortalidade estava sendo inflada ou comemoravam o número de curados, sem contextualizar a curva de crescimento da doença.

As imagens que continham esse discurso foram encaminhadas 3.345 vezes, o equivalente a 20% do total de compartilhamentos.

Essa linha de notícias falsas também foi monitorada por uma parceria entre o Eleições sem Fake e o Monitor do Debate Político no Meio Digital, da USP.

Os grupos analisaram áudios que circularam entre os dias 24 e 28 de março e constaram que, entre os 20 áudios com maior circulação, cinco negavam a gravidade da pandemia.

O sexto áudio mais compartilhado tratava do mesmo caso do homem que teria sido contabilizado como vítima da Covid-19, enquanto o quarto negava o número de mortes e dizia que sobram caixões na cidade de Lindoeste (PR).

As manifestações 

As imagens compartilhadas nos grupos de WhatsApp durante a pandemia também abordavam as manifestações ocorridas ente março e junho. Entre as 100 imagens mais compartilhadas, 29 tinham como tema principal algumas dessas manifestações.

As imagens iam desde os panelaços, passando pelas carreatas pela reabertura do comércio em cidades pequenas, até os atos antidemocráticos em Brasília, investigados pelo Supremo Tribunal federal (STF).

De acordo com o levantamento, uma corrente de imagens chamava para manifestações em pelo menos 14 cidades do Brasil entre 31 de maio e 7 de junho.

Nesta datas, apoiadores do presidente Jair Bolsonaro saíram às ruas contra inquéritos no STF que investigavam a disseminação de noticias falas e pediam por intervenção militar.

Os ataques e as críticas ao STF e ao Congresso foram tema de 12 das 100 imagens mais populares. Algumas chegavam a disseminar informações falsas a respeito de ministros.

Políticos da oposição e de esquerda também foram atacados em pelo menos 12 das 100 imagens mais compartilhadas pelo WhatsApp, que somam um total de 1.846 compartilhamentos.

Uma das mais compartilhadas, com 154 compartilhamentos em 84 grupos, é um print de um suposto grupo chamado “RESISTÊNCIA PARÁ”, em que participantes com nomes como Psol Uepa ou #LulaLivre bolam um plano para infectar outras pessoas e “mostrar que Bolsonaro é genocida”.

Além de políticos, jornalistas e veículos de imprensa também foram alvos de ataques em quatro das cem imagens mais populares.

A 12ª imagem mais compartilhada no WhatsApp no período analisado tinha a manchete do site bolsonarista Senso Incomum. “Esperança: Quatro pacientes foram curados em SP com o uso da hidroxicloroquina”, e foi compartilhada 290 vezes para 95 grupos diferentes.

Outro tema das imagens mais compartilhadas foi a hidroxicloroquina, que foi apresentada nos conteúdos como possível cura para o coronavírus em duas das 100 imagens. O ‘Top 100’ ainda incluía imagens que visavam defender o presidente Bolsonaro (3) e a reabertura da economia (6).

Quando presidente fala, os grupos trabalham

De acordo com a análise, os 522 grupos de WhatsApp tiveram mais atividade nos dias em que a presidência da República também marcou presença nas redes sociais.

O dia mais ativo foi em 28 de março, pouco depois da divulgação da campanha ‘O Brasil não Pode Parar’, pela Secretaria de Comunicação do Governo.

O segundo pico foi entre os dias 3 e 4 de abril, com o compartilhamento das imagens que associavam falsamente governadores e políticos da oposição a suposto criminoso chinês.

No dia de 2 abril, o presidente havia compartilhado um vídeo no qual uma apoiadora critica os governadores pelas medidas de isolamento adotadas no combate ao coronavírus.

No entanto, o dia menos ativo foi em 23 de abril, na véspera da saída de Sergio Moro do Ministério da Justiça, apontado como o ministro mais popular do governo até então.

Ainda assim, abril foi o mês de maior atividade nos grupos de WhatsApp. Foi neste período também que as manifestações a favor do presidente, contra as medidas de isolamento social e as instituições democráticas começaram a se espalhar pelo país.

mês de menor atividade nos grupos foi junhoquando aliados do governo começaram a ser investigados pelo STF nos inquéritos que apuram a disseminação de notícias falsas e organização de atos antidemocráticos.

Por: Mariana Lima

Fonte: Agência Pública / observatorio3setor.org.br

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